A escolha da expressão “último suspiro” como título soa natural e desprovida de qualquer preconceito sobre o que representa – a morte.
Sempre achei de gosto duvidoso as traduções dos títulos de filmes estrangeiros. Para se adequarem ao mercado e fazer da película algo desejável, as distribuidoras fazem verdadeiros malabarismos.
Como esse mercado de exibição poderia lidar com um filme cujo título original, para a maioria das pessoas, causa arrepios, “O último suspiro” (no original francês Le Dernier Souffle )?
Para podermos responder a essa pergunta, precisamos de um pouco de história.
Se você tem mais ou menos 65 anos, tem grandes chances de se lembrar de um diretor franco-grego cujo filme de maior sucesso é “Z“.
Já em 1969, Costa-Gravas fazia um cinema que se recusava calar frente a um sistema fascista e assassino.
Hoje Gravas tem 92 anos e a clareza de que lutar pela vida diz respeito a encarar politicamente não só a vida, como a morte.
“Em nossa sociedade, nem todos os meios estão disponíveis para que as pessoas tenham um bom fim. A morte nos assusta terrivelmente desde que somos pequenos e não queremos falar sobre isso. Não, temos que falar sobre isso e nos preparar!”, defende o diretor. “É por isso que fiz este filme, para mim.”
Sim, porque a escolha da expressão “último suspiro” como título parece ter sido uma escolha natural e despida de qualquer preconceito com o que significa: a morte.
E foi assim, de forma poética, delicada e cheia de vida, que Gravas fez o filme que por aqui nomearam, “Uma bela vida”.
Chega a ser chocante a dificuldade escancarada em bancar um título que desafia a todas as potenciais audiências a encarar nosso inexorável fim.
Saí do cinema sentindo que a morte pode ser bela. Explico.
Acompanhamos uma sequência suavemente trabalhada de pessoas jovens e velhas que têm afrente uma escolha a ser feita: morrer empenhando todas as energias resistindo ou escolher para seus fins dias dignos, potentes e realistas?
Gente como a gente: pai, mãe, jovem na flor da idade, cigana, motoqueiro, professora… um mosaico de vidas que puderam dizer sim a um fim respeitoso, cheio de afeto e fundamentalmente DIGNO.
E dignidade tem nome: Cuidados Paliativos.
Profissionais que olham para o paciente holisticamente, que escutam a dor e a raiva daqueles que não querem deixar de viver, daqueles que não conseguem deixar seu familiar ir.
Para onde, não sabemos…
Para isso temos o que chamamos de espiritualidade: mil razões para nos conformarmos com o fim.
Mas de modo prático sabemos que o alívio da dor profunda e do medo do desconhecido podem ser muito aliviados com estratégias farmacológicas e manejo humanizado desses quadros.
Um médico paliativista e sua equipe, um filósofo que pode estar desenvolvendo um tumor no intestino, pacientes terminais e uma montagem cuidadosa, acabam nos presenteando com uma história síntese de muitas histórias reais que nos chegam ou que já vivemos.
A vida é bela quando conseguimos olhá-la de frente e nos regozijarmos com suspiros de espanto e descoberta. Mesmo que sejam os últimos de nossas belas vidas.
Fonte – Portal do Envelhecimento
Foto – Divulgação





